3 de fevereiro de 2018

Momentos finais da tese, a dor

Quem já passou por ela sabe. Você quer concluir e encerrar essa etapa tão estressante da vida, embora gostaria de ter mais tempo, voltar ao laboratório, continuar as pesquisas, analisar por outro método, mas não dá mais tempo. Agora é finalizar entregar e esperar a data da defesa.


Só para situar, uma tese é a finalização do doutorado enquanto a dissertação é do mestrado e o trabalho de conclusão de curso (TCC) é o de graduação.  Especificamente, sobre a dor da tese, a  antropóloga Miriam Grossi publicou um artigo que me interessou porque estou acompanhando  de perto mais uma vez, esse momento em casa e também, porque, consequentemente, passo por essa dor. Quem sabe, você lendo, acaba até compreendendo melhor aquele seu amigo que está sofrendo dessa mesma dor!

Que dor é essa? 
dor da escrita da tese, é uma dor que se re-atualiza (em menor escala) cada vez que temos de escrever um artigo para um congresso ou mesmo dar uma aula. Creio que a proposta teórica de Joyce McDougall, psicanalista que vem refletindo nos últimos anos sobre o processo de criação artística e a sua relação com o inconsciente e o corpo, pode nos servir como pano de fundo para entender o processo de criação intelectual, num sentido mais amplo. Nos casos clínicos que sustentam as suas análises, os artistas (escritores, pintores, artistas plásticos) sofrem fisicamente, e é a partir desse sintoma que procuram a psicanálise. McDougall constata que a criação artística é antecedida de doenças, e que os seus analisados (artistas) conseguem produzir artisticamente apenas depois de terem elaborado aquilo que, no inconsciente, embarga a criação — e que é ao mesmo tempo a fonte do processo criativo. A autora vai além da ideia mais corrente de somatização, afirmando que o sofrimento expresso no corpo é uma das formas psíquicas mais recorrentes no processo de criação, e que este sofrimento é parte do próprio processo de criação.

Acredito que o mesmo pode ser dito relativamente ao processo de criar uma tese, e que a sua teoria pode nos ajudar, enquanto orientadores, a entender os sofridos processos pelos quais passam os nossos orientandos. Doenças são muito comuns no momento da escrita da tese. Doenças leves como gripes, resfriados e diarreias até doenças muito mais graves como câncer, problemas cardíacos, sérias infecções, problemas ginecológicos, aí se incluindo tentativas de suicídio (ou até mesmo consecuções). Como orientadores, defrontamo-nos seguidamente com os nossos alunos doentes, submetidos a dores físicas e impedidos de escrever.

Como, então, lidar com este sofrimento?
Tenho-me perguntado, à luz das observações por que nós, respeitamos o sofrimento da escrita apenas quando ele se expressa em doenças graves? Talvez fosse mais saudável se conseguíssemos permitir a nossos alunos a elaboração do que significa o processo criativo de escrever uma tese.

Muito já foi pensado, mas creio que ainda há muito a se elaborar sobre outras etapas, em particular a etapa da escrita de uma tese. Mas existem os prazos, e estes precisam ser cumpridos. Por isso, escreve Miriam, que a "dor da tese" é uma dor não apenas de quem escreve a tese, mas também uma dor de quem orienta, dor que fala também de uma relação que se encerra com o final da tese.

Créditos da foto

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